Estúpidos devaneios me fazem prosseguir, lanço-me em uma continua existência, viver é uma paixão inútil, sucumbi a necessidade de me espremer aos papéis dados a mim, meu monologo é escuro, a minha plateia é vazia, minhas enfermidades agudas apresentam remédios severos, amontoei-me as chagas, aos desejos carnais, ao afeto que era de minha falsa propriedade, meu buraco não me permite as rosas, meus anseios são mais profundos.
Laís Lopes.
Reduzida as partes, quantas de você ficaram?
Quantas de você sou eu?
Ou quantas de mim são você?
Poderia escrever sobre o Frankenstein, mas não falo sobre partes humanas, mas sim, das borboletas que foi capaz de por em meu estomago, dos vaga-lumes deixados em minha cabeça, dos ácaros em minha respiração ofegante e ineficaz, dos vermes que se proliferavam a cada sistole e diástole, quantas de mim não são mais eu?
Laís Lopes.
Laís Lopes.
Um corpo igual a outros 6 bilhões, aos olhos nus de qualquer pessoa, porém uma caixa de ossos para quem o habitava, uma moradia para quem o conhecia, esperava a autopsia fazia umas oito horas, morto em uma manhã de sábado, mas naquele dia só o corpo morreu, o resto não estava lá já fazia muito tempo, rins, fígado, pulmões, podres a décadas, veias, artérias, serviam apenas como tubulações, agora já entupidas, cérebro, permitia que substâncias erradas entrassem e fizessem seu jogo, coração, tirado pela primeira cigana que ousou rouba-lo. Estirado em uma mesa fria, sendo cortado como folha de papel, o único órgão restante e o maior deles, era a pele, carregado de células mortas, perfumes usados, cheiros particulares, dos mais importantes odores, aos que foram esquecidos após 24 horas, cicatrizes jamais vistas antes, expostas como quadros em uma galeria de arte, a quem as ache terríveis, no em tanto eram poesias de dias ruins, noites turbulentas de insônia, tombos dolorosos de atitudes inconsequentes ou até mesmo bobas. O corpo não carregava nada, mas ao mesmo tempo tinha tudo, uma caixinha de cartas personalizada, vazia, para quem via, mas não enxergava, abarrotada até a tampa para quem a possuía.
Laís Lopes.